Este texto que transcrevo em baixo, foi escrito pelo fundador do Grupo
Teatral Freamundense, Fernando Santos, aquando do 20º aniversário do GTF, em 1983. É um relato na primeira pessoa daquele que foi o elemento mais importante do teatro
em Freamunde. Vale bem a pena perder um bocado de tempo e ler este longo, mas belíssimo texto com quase trinta anos.
" Vinte anos se passaram …
… e parece que foi ontem! … Havia já uns 15 anos que eu havia trocado a cidade
do Porto por esta orgulhosa terra da Chã de Ferreira, chamada Freamunde, que me
acolheu com a simpatia e a Hospitalidade que são apanágio e a tornam
magicamente atraente, e a qual me dediquei como nela se tivesse gerado… Foi o
Teatro que aqui me trouxe, o Teatro, o Teatro que sempre encheu a minha vida
desde menino, quando, pela mão de meu pai (critico teatral num diário portuense),
eu assistia a todas as estreias que aconteciam na Cidade Invicta. O Porto era,
ainda nessa altura e no dizer do grande actor Eduardo Brasão, “… a pedra de
toque da cena portuguesa… “ . Chegou a ter quase tantos teatros a funcionat
todas as noites, como hoje tem cinemas!... E eu sentava-me, ansioso e
expectante, perante um “pano” que em breve iria abrir e desvendar um mundo que
sempre me fascinava e me marcaria para sempre. Os anos
correram e, certo dia, um senhor de fartos bigodes apareceu no Porto a
contratar um grupo de amadores que eu dirigia para um espectáculo em Freamunde,
a favor da Associação de Socorros Mútuos. Representamos a peça "Duas
Causas"...A recita agradou e novo contrato surgiu. E outro... E outros...
Não me
lembro se cheguei a beber agua do Agrelo ou se ma deram sem eu saber... O certo
e que cá fiquei e, comigo, o viciozinho pelas tábuas de palco, semente teimosa
e atrevida que, afinal, vinha encontrar fértil terreno para a sua reprodução,
bem lavrado e adubado por esse inesquecível cultivador da cena freamundense que
se chamou Leopoldo Pontes Saraiva.
E foi logo uma incansável e alegre labuta na produção de espectáculos:
"Bocacio na Rua", "Irene", "A Rainha Claudia",
"A Flor da Aldeia", "Traviata", "Intrigas no Bairro",
"Cama, Mesa e Roupa Lavada"... eu sei lá, até uma revista, por mim
propositadamente escrita E: "Freamunde é Coisa Boa!..." Mas, depois,
cansei! Não sei porquê mas cansei... e o Teatro parou por 10 anos!...
Foi
então que me apareceu um homem aberto e franco, que tudo dizia, doesse a quem,
doesse, nervosamente, gaguejadamente, mas que se fazia entender com toda a
facilidade e que eu hoje recordo com muita ternura e nostalgia: Maximino
Ferreira Rego. Muito pouca gente sabe o que o Maximino Rego teve a ver com a
"Gandarela" e com o Grupo Teatral Freamundense e porque incluímos o
seu nome entre o dos nossos mortos mais queridos e no enorme lote da nossa
saudade e gratidão.
Certa noite, descíamos os dois as escadas do antigo Clube Recreativo, quando
o Maximino Rego, naquele seu jeito peculiar de começar a dizer as
coisas com alguma calma e muita manha..., para em breve se entusiasmar numa
franqueza sôfrega que o fazia gaguejar aflitivamente, interrompendo-se amiúde a
procura das palavras, entendeu dever dizer-me coisas menos agradáveis sobre a
"preguiça e o desleixo" que me levaram a interromper as
actividades teatrais. Naquele seu característico afã de tentar convencer os
outros, chegou a jurar pela saúde e pela alminha dos seus que, se tivesse a
capacidade - que me atribuía... - de poder por a "coisa" a funcionar,
já há muito o teria feito, sem fazer a "figura triste que eu andava a
fazer..." E, no seu entusiasmo, chegou mesmo ao insulto, com muitos e
vigorosos toques com as pontas dos dedos nos meus braços e peito, forma muito
sua e de outros Regos... - de despertar o interlocutor e se fazer ouvir... E
tanto me disse, tanto me tocou, com tal vigor me atirou o seu
"desprezo"... que, efectivamente conseguiu despertar o meu orgulho,
pelo que, já farto de o ouvir e seriamente agastado com a conversa e moldo
pelos toques, lhe ripostei zangado: "Pois bem, vai haver teatro e
escreverei mesmo, uma peça de propósito!" Foi isto pelo S. João. Em Agosto
estava escrita a "Gandarela". Em Setembro, o Jaime Rego passou as
suas férias em Freamunde - como ainda hoje o costuma fazer - e ajudou-me a
escrever a música que eu inventara e a que decidira adaptar. Ao mesmo tempo
recrutavam-se e escolhiam-se os "actores" e começavam aí os ensaios.
Em 22 de Dezembro de 1963, o Grupo Teatral Freamundense dava a sua primeira
representação, estreando a "Gandarela", que hoje renasce.
Curiosamente, vinte anos depois, O G. T. F., a braços com o problema de um
local para ensaios, foi encontrar acolhimento e essa possibilidade precisamente
na casa onde Maximino Ferreira Rego sempre viveu e morreu...
Assim
nasceu um grupo de teatro que ia dar muito que falar no país e até no estrangeiro.
Durante a década de 60 e nos primeiros anos de 70, o nome de Freamunde passeou,
pela mão do G. T. F., pelas principais cidades portuguesas e pelos seus palcos
mais importantes. Os prémios sucederam-se e o aplauso dos críticos mais
exigentes encheu colunas e colunas dos jornais e revistas.
Convites choviam de todos os lados, mesmo no estrangeiro, casos de Nancy e
Avignon que dificuldades económicas e de disponibilidade de tempo impediam de
aceitar. O nome de Freamunde foi até ao Japão, a Yokohamma, representar
Portugal numa exposição Documental de Teatro Amador... Até ao 25 de Abril 30
espectáculos diferentes justificavam o entusiasmo com que o nome do G. T. F.
era acolhido pelos mais proeminentes nomes das Letras e do Teatro. O G. T. F.
aparecia em todos os meios da comunicação social tendo mesmo, a TV feito
deslocar a Freamunde várias equipas de reportagem que lhe chegaram a dedicar
programas de meia hora!...
A Revolução dos Cravos veio apanhar o G. T. F. com duas peças em
cena: "MAR", de Miguel Torga, e "O BAR&O" de Luis de
Stau Monteiro. 0 entusiasmo revolucionário da época prejudicou a representação
destas duas belas obras do nosso Teatro, que foram retiradas do cartaz
extemporaneamente. "O Barão" só deu, mesmo uma representação em
Guimarães e um espectáculo - ensaio em Freamunde. Foi uma pena... A
hora era de mudança, todos desejavam gritar as verdades silenciadas por longos
anos de censura e foi com alegria que se procedeu a estreia mundial da peça
"Farsas Contemporâneas" , de António Ballesteros , peça espanhola,
proibida na própria Espanha, onde Franco, já agonizante, ainda silenciava o
pensamento e fuzilava os últimos opositores mais destemidos. Uma embaixada
cultural da Rússia, da qual fazia parte o actual Ministro da Cultura Soviética,
George A. Ivanov, de visita ao Teatro Português, inclui Freamunde na sua
digressão, tal era o prestigio do G. T. F. ...
Mas a mudança politica, com a consequente
divisão ideológica, agora finalmente legalizada, tinha, inevitavelmente, de
fazer esmorecer o entusiasmo inicial. Disso se ressentiu o país e o G. T. F.,
que só conseguiu mais três ou quatro realizações... Depois, as obras na sala em
que actuava - num estado de degradação impossível de continuar a suportar -,
acabaram por interromper os seus trabalhos. Por pouco tempo, pensava-se... Era
um acto de coragem da Direcção da Associação de Socorros Mútuos, que, em breve,
se viu a braços com dificuldades económicas para poder levar o seu projecto a
bom termo: cinco anos se gastaram na realização da obra... e ainda não esta
concluída... Cinco anos silenciou o G. T. F. a sua voz, a voz que mais alto
elevava o nome de Freamunde na admiração dos estranhos. Os subsídios
pedidos falhavam ou eram tão ridículos que nos chegavam a
ofender... Só a Câmara Municipal de Paços de Ferreira, cujo Executivo tomou
plena consciência da enorme importância cultural do empreendimento, tudo tem
feito para que seja levado a cabo.
Mas o
G. T. F. ia fazer 20 anos em 22 de Dezembro de 1983 e impunha-se festejar a
data. As obras estavam atrasadas e o dinheiro era cada vez menos. Boas vontades
se uniram, então, para um último
esforço, não só de alguns amigos como dos próprios fornecedores e
trabalhadores, cujas facilidades dadas nunca serão demais realçar e
agradecer... O auxilio Municipal foi, também, precioso... e só o pouco tempo de
que se dispunha não permitiu que tudo estivesse pronto neste festivo dia. Está
o essencial... e Freamunde passou a possuir um "teatro-estúdio"
acolhedor e melhor e maior do que os de quase todos os grupos independentes de
Lisboa e do Porto.
Com ele renasce o G. T. F. e a sua continuação da tradição teatral
freamundense.
Acompanhando a onda de revivalismo que se está a verificar no teatro de todo o
mundo, repõe-se a opereta "Gandarela", 1? obra do G. T. F., peca de
costumes populares, sem preocupações artísticas ou intelectuais, mas que há
vinte anos, constituiu o seu maior êxito de bilheteira, que bem necessitamos se
volte a verificar...
Sendo uma obra ainda com certos laivos de actualidade, a opereta
"Gandarela" e já um documento histórico da Vila de Freamunde. E, se
politicamente corre o risco de poder ser considerada reaccionária - e até o é
..., só se desculpando pela implacável desinformação praticada pelo governo
salazarista da época em que foi escrita -, tem a virtude de documentar factos
da vida freamundense que os mais novos desconhecem e não mais se verificarão:
Hoje já não há
sardinheiras, nem tamanqueiros, nem tasqueiros, actividade que, há vinte anos,
caracterizavam a nossa terra. O classismo e a "diferenciação” social, com
o 25 de Abril, esbateram-se muito e, hoje, nem Leigal e zona exclusiva dos
"ricos", como então era considerada, nem a Gandarela significa
"miséria" e menos educação... Não sei se ainda haverá quem recorra a
"defumadouros" para alcançar os seus fins... De qualquer modo, a luz
eléctrica, agora acesa toda a noite - o que então se não verificava - muito
terá limitado essa prática... A autoridade policial e administrativa deixou de
poder contar com as figuras simpáticas, mas bizarras, do regedor, dos cabos
d'ordens e do administrador do concelho...
As festas
Sebastianas eram sempre feitas com imensas dificuldades económicas e ninguém
queria tomar conta delas. Na "marcha" e na "praça",
Gandarela e Leigal apresentavam sempre os seus ranchos pseudo-folcloricos, numa
competição que hoje não acontece... A "Banda da Pocarica" foi uma
tentativa gorada de concorrência a Banda Cómico-Musical que Figueiró sempre
apresentava com imensa graça... 0 cauteleiro Miguel, que aparece na peça, era
uma figura típica e popular, com o seu estridente pregão a nasalado e sempre a
falar em redondilha rimada. Aquele fotógrafo tambem existiu: era o "a la
minute" e chamava-se Floriano... O relógio da Igreja, sempre avariado,
passou anos sem ser composto...A estúpida pratica do "mel",
que consistia em molhar, nos dias das "Sebastianas", todos os que,
após a "vaca-de-fogo", não recolhiam a suas casas - o que ainda hoje
se verifica -, tinha sido proíbida, tendo a Guarda Republicana aconselhado a
Junta da Freguesia a esvaziar os tanques da praça nesses dias...
Tradições
há, contudo, que ainda se mantém: o roubar dos vasos, na véspera de s. Pedro,
para com eles ser enfeitada a capela de Santo António... e - já tradicional: -
a falta de retretes públicas, nada admirando que os sócios do Clube Recreativo
tivessem as cercanias pouco respeitadas...
Por
tudo isto, a opereta "Gandarela" oferece um interesse que cada vez
mais se aviva com o decorrer dos anos. Achamos importante repô-la, mesmo não
sendo este o tipo de teatro que mais pode interessar a nossa actividade futura.
Mantivemos a encenação inicial, com todos os seus erros e as suas
infantilidades... Só não podemos manter os mesmos actores, como o tínhamos
feito há 10 anos, porque o tempo não perdoa e deixa inultrapassáveis marcas em
cada um de nós... Cantamos sem sabermos cantar... Fizemos pão de ló sem ovos...
Oxalá vos saiba bem!
Vinte anos se foram!... Bons tempos, costuma dizer proverbial saudosismo
latino... Eu não estou de acordo. Eu acho que todos os tempos são bons, e que
os de agora não são piores, nem melhores que os anteriores. Só que... vinte
anos se passaram, que há menos vinte anos para viver e não seria mau podermos
voltar atrás...
Fernando Santos " - 1983
FICHA TÉCNICA DA OPERETA POPULAR "GANDARELA" - 1983












